Santo Agostinho não era ainda mais que sacerdote, quando recebeu uma carta encantadora de suavidade, elegância, amizade e louvores, da parte de ilustre senador e cônsul romano, que, com a mulher, acabava de abraçar a vida monástica. A carta estava acompanhada de um pão bento, em sinal de união. No cabeçalho estava escrito:
Cultivou tais predicados desde a infância, por um estudo assíduo dos diferentes ramos da literatura. Teve por mestre de eloqüência e de poesia o célebre Ausono, que foi cônsul em 379. Foi elevado, conquanto jovem aindam às mais altas dignidades, e declarado cônsul antes de Ausono, seu mestre. Desposou uma espanhola chamada Tereásia ou Teresa, que lhe trouxe vultuosos bens, que era sobretudo distinta pelo mérito pessoal e pela piedade. Fez grande número de amigos na Itália, na Espanha e nas Gálias, onde havia exercido durante o espaço de quinze anos os seus raros talentos e a maravilhosa capacidade para administração dos negócios, tanto públicos como particulares. Mas a morte de um irmão, as revoluções políticas que se seguiram ao assassínio do imperador Graciano, e mais ainda os entretenimentos que teve com Santo Ambrósio de Milão, com São Martinho de Tours, com São Victrício de Touen, com o Santo Delfim de Bordéus, da mão do qual recebeu o batismo pelo ano de 380, deram-lhe gosto pelo retiro e inspiraram nele o desejo sincero de levar uma vida mais cristã.
Enfim, encorajado pela mulher, retiraram-se ambos para uma pequena propriedade que tinham na Espanha e ocuparam-se unicamente de sua santificação, desde o ano de 390 até 394. Foi lá que perderam o filho único que Deus lhes havia dado. Enterraram-no em Alcala, junto dos santos mártires Justo e Pastor. Desde esse tempo obrigaram-se, com sentimento mútuo, a viver em continência perpétua.
Em breve, Paulino mudou o hábito, a fim de anunciar ao mundo a resolução de abandonar o senado, os pais, os bens, e ir sepultar-se num mosteiro ou no deserto. Os bens deviam ser consideráveis, pois Ausono testemunhou o pesar que sentia de ver partilhar entre cem pessoas diferentes os reinos de Paulino, seu pai.
O santo vendeu todas as possessões e distribuiu o preço entre os infelizes. Abriu os celeiros e paióis a todos os necessitados. Não contente com aliviar os pobres da vizinhança, chamou-os de todas as partes para nutri-los e vesti-los. Resgatou uma infinidade de cativos e de pobres devedores reduzidos à escravidão por não terem o que pagar. Vendeu igualmente os bens da mulher, que não aspirava com menos fervor à prática da pobreza voluntária. Tal ação foi louvada e admirada por todos os santos que se viam então na Igreja. Mas asa pessoas do mundo tachavam-na de loucura. Paulino foi abandonado por todos, mesmo pelos parentes e escravos, que recusavam prestar-lhe os serviços mais comuns da humanidade. Ausono, seu mestre, que era cristão, mas apenas o suficiente para não ser pagão, queixou-se da transformação, por várias cartas em verso. O santo respondeu-lhe por diversos pequenos poemas transudando urbanidade delicada, onde lhe assegura que a sua conversão a Deus não fazia senão tornar mais íntima a antiga amizade.
Todavia, em meio a essa censura geral, viu dois de seus mais ilustres amigos seguirem-lhe o exemplo. O primeiro foi Sulpício; o segundo Santo Aper, vulgarmente Santo Evre, que foi bispo de Toul.
O propósito de Paulino, renunciando ao mundo era ir passar os dias num ermo próximo de Nola, na Campanha, e servir Jesus Cristo na tumba de São Félix, ser o porteiro da igreja, varrer o pavimento todas as manhãs, vigiar à noite para guardá-la, e terminar a vida no trabalho. Mas o povo de Barcelona, edificado com a pureza de seus costumes, apoderou-se dele no Natal de 393, e pediu com insistente calor que se tornasse sacerdote.
Ele defendeu-se como lhe foi possível, e não consentiu na ordenação senão com a condição de que seria livre de ir para onde quisesse. Era contrário às regras da Igreja; mas se passava por vezes por cima delas. Após a Páscoa do ano seguinte, 394 abandonou a Espanha para ir à Itália. Em Milão vivia Santo Ambrósio, que o recebeu com muitas honras e o agregou ao seu clero. Continuando a viagem, foi até Roma, onde melhor o recebeu o povo do que o clero. Alguns eclesiásticos e o Papa não queriam relações com ele. Paulino cedeu à inveja e retirou-se; mas escrevendo a seu amigo Sulpício Severo, não pode deixar de queixar-se. Talvez o Papa, que tinha muito zelo pela observância das regras da Igreja, não achava bom que, contrariando tais regras, Paulino houvesse sido ordenado sacerdote sendo neófito leigo, e sem estar unido a uma igreja particular. Seja o que for, Paulino apressou-se em deixar Roma para dirigir-se a Nola, onde tinha escolhido o retiro junto da tumba de São Félix, que ficava a alguns passos da cidade.
Haviam construído uma igreja sobre a sepultura; ao pé da igreja havia uma construção muito longa de dois andares com uma galeria dividida em celas, das quais Paulino se servia para receber eclesiásticos que iam visitá-lo. Do outro lado havia um alojamento para pessoas do mundo, e também um pequeno jardim. Muitas pessoas piedosas tinham-se unido a ele, que formou então uma sociedade chamada companhia de monges. Todos se sujeitavam a uma regra, e praticavam diversas austeridades. Cada dia Paulino rendia a São Félix toda a honra de era capaz; mas tentava ultrapassar-se no dia de sua festa.
Todos os anos lhe celebrava os louvores com um poema, que chamava de tributo de sua homenagem voluntária. Temos ainda hoje quinze desses poemas, o primeiro dos quais foi composto na Espanha.
Paulino morreu em 431. Tinha sido eleito bispo de Nola em 409 e, nesse cargo, não procurou jamais fazer-se temido, mas amado de todos. Nos julgamentos, examinava com rigor e decidia com doçura. Conquanto houvesse distribuído tão liberalmente os bens, outrora, tomava grande cuidado dos da igreja para despendê-los fielmente.
Dava a todos, perdoava, consolava, edificava uns pelas palavras, e pelas cartas, outros pelos exemplos. A reputação estendia-se-lhe por todo o império, e também entre os bárbaros. Feito prisioneiro dos godos, que devastavam a Itália em 410, disse a Deus com confiança:
“Não permitais, Senhor, que me torturem pelo ouro e pela prata; sabeis onde coloquei tudo o que me destes”. Sua prece foi ouvida: os bárbaros não o torturaram, e também não os que haviam tudo abandonado por Jesus Cristo. Em seguida, nada mais tendo a dar, tornou-se escravo para resgatar os filhos de uma viúva, aprisionados na África pelos vândalos, depois de estes haverem devastado a Campanha. Tinha a idade, como se crê, de setenta e oito anos, quando caiu enfermo de uma dor do lado; e como haviam desesperado da cura, dois bispos foram visitá-lo.
Sua chegada proporcionou-lhe tanta alegria, que parecia ter esquecido a doença; e, estando prestes a entregar a alma a
Após haver cumprido tudo com alegria, disse repentinamente, em voz alta: – Onde estão meus irmãos: Um dos assistentes, persuadido de que falava dos bispos que estavam presentes, disse: Ei-los! São Paulino replicou: – Refiro-me a meus irmãos Janeiro e Martinho, que acabam de falar-me, e que me disseram que vinham buscar-me. Ouvia São Janeiro, bispo de Cápua e Mártir, cujas relíquias estavam então em Nápoles, e São Martinho de Tours, que lhe tinham aparecido.
Em seguida, estendeu as mãos ao céu e cantou o salmo: Elevei as mãos às montanhas, e terminou por uma oração. O sacerdote Postumiano advertiu-o de que devia quarenta moedas de outro pelas vestes que havia daod aos pobres. São Paulino respondeu sorrindo: Meu filho, não te preocupes, encontrar-se-á alguém que liquidará a dívida dos pobres. Pouco depois, entrou um sacerdote vindo de Lucânia, enviado pelo bispo Exuperâncio e seu irmão Ursaco, homens eminentíssimos, que lhe trouxeram cinqüenta moedas de ouro como presente; São Paulino recebeu-as e disse: Rendo-vos graças, senhor, de não ter abandonado i que em vós espera. Deu duas moedas de ouro ao sacerdote que as havia trazido, e ordenou fosse o resto pago aos mercadores que haviam dado as vestes aos pobres.
Caindo a noite, repousou até meia-noite, depois a dor de lado recrudesceu com violência, sem contar o mal que lhe haviam feito os médicos, aplicando-lhe fogo diversas vezes, inutilmente. Sofreu também muito de opressão do peito, até uma hora da madrugada. Ao romper da aurora, segundo o seu costume, acordou todos, e rezou as matinas, ou melhor, as laudes, como de ordinário; clareando o dia, falou aos sacerdotes, aos diáconos e a todo o clero, exortando-os à paz, ficando depois sem falar até a tarde. Em seguida, como que despertando, lembrou-se de que Ra tempo do ofício das lâmpadas, vale dizer, das vésperas e, estendendo as mãos, cantou lentamente: Preparei uma lâmpada ao meu Cristo.
Após algum tempo de silêncio, pela quarta hora da noite, vale dizer dez horas, todos os assistentes estavam bem acordados, foi a cela sacudida por um tremor tão grande de terra, que se prostraram a rezar atemorizados, sem que os que estavam fora do quarto de algo se apercebessem. Ele entregou a alma, e o semblante e todo corpo pareceram brancos como a neve. Era o dia 22 de Junho de 431, dia em que a Igreja lhe honra ainda a memória. As circunstâncias de sua morte foram escritas por um sacerdote chamado Urânio, que a havia presenciado. (Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XI, p. 94 à 100)