São Bernardo De Claraval: Monge, Místico E Profeta

Varão de fogo, conselheiro de papas e monarcas, denominado pelo Papa Inocêncio II de “muralha inexpugnável que sustenta a Igreja”, São Bernardo foi também admirável arauto da Virgem Maria e um dos primeiros apóstolos da mediação universal da Mãe de Deus. Pe. Pedro Morazzani Arráiz, EP O ambiente era de expectativa e seriedade. A multidão comprimia- se, silenciosa, em torno de um homem ainda jovem, de fisionomia austera, que pregava à beira de um rio. Sua voz, grave e compassada, transmitia uma profunda paz de alma. “Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus. (…) Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Mt 3, 2-3), afirmava com severidade. Depois continuava suavemente, quase enternecido: “Vem depois de mim quem é mais forte do que eu, ao qual não sou digno de desatar, prostrado em terra, a correia das sandálias” (Mc 1, 7). João Batista, o último e maior dos profetas do Antigo Testamento, anunciava à nação eleita o próximo aparecimento do Salvador do gênero humano. E mais tarde, quando revelou a divindade do Messias ao proclamar: “Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29), a longa e grandiosa fileira dos profetas, que haviam predito o advento do Redentor e guiado o povo através dos séculos de espera, estava finalmente encerrada. Todas as profecias tinham-se cumprido. A Revelação está completa, mas Deus deseja servir-se das causas segundas para comunicar seus divinos desígnios à humanidade. Assim, sempre suscitará Ele alguns varões e mulheres que indiquem o Caminho, ensinem a Verdade e transmitam a Vida à maioria dos homens. Esta realidade no-la explica São Tomás, na Suma Teológica: “Em todas as épocas houve alguns que possuíam o espírito profético, não para dar a conhecer doutrinas novas, mas para dirigir a vida humana”. O profeta do século XII No século XII a Civilização Cristã havia atingido um auge que nenhum santo poderia ter imaginado nos albores duros e sangrentos da primeira época da Igreja: “A filosofia do Evangelho governava os Estados; a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil” – afirmou Leão XIII na Immortale Dei. O sustentáculo dessa sociedade sacral havia sido, durante mais de um século, a santidade emanada da abadia beneditina de Cluny. Tendo-se espalhado rapidamente por todo o Ocidente cristão, esses filhos de São Bento influenciavam e orientavam a espiritualidade e a cultura dos povos da Europa a partir do interior de seus imensos mosteiros, do alto dos púlpitos, desenvolvendo uma belíssima e aristocrática liturgia e encantando as multidões com o angélico canto gregoriano. Entretanto, após alcançar o píncaro, a grandeza de Cluny desvanecia-se lentamente, quiçá por não ter havido almas generosas que, no ápice do esplendor, quisessem partir para novos extremos de santidade. Surgiu então, não uma instituição, mas um homem que foi o reformador da disciplina eclesiástica, o modelo de todas as virtudes, a voz de Deus a indicar novos rumos àquela sociedade que começava a vacilar: Bernardo de Claraval. No ano de 1091 nascia num castelo da Borgonha o terceiro filho do senhor de Fontaines e da virtuosa dama Alet. Pouco antes de dar à luz o menino, teve ela um sonho tão nítido e expressivo que sua maternal intuição não deixou de ver nele um providencial aviso sobre o futuro do filho: tinha-lhe aparecido um cachorrinho de alvíssima pele que latia fortemente e sem cessar. Aflita, porém, por não alcançar uma clara interpretação que traduzisse seus pressentimentos, consultou um Um nítido e expressivo sonho revelou à mãe de Bernardo o futuro de seu filho (São Bernardo e seus pais Vitral do Mosteiro de Mariawald, Alemanha) Metropolitan Museum of Art, New York, USA servo de Deus, o qual lhe respondeu: “O menino será um grande pregador e latirá continuamente para guardar a Casa de Deus, e curará as chagas de muitas almas”. Descendente de duas nobres famílias e pairando sobre ele esse misterioso vaticínio, criou-o sua mãe com especial esmero, e logo que foi possível o enviou a uma famosa escola na cidade de Châtillon-sur-Seine. Seu grande talento intelectual causava admiração aos mestres e prometia-lhe uma brilhante carreira. A índole afável e um tanto tímida de Bernardo possuía uma nota de nobreza e amenidade que atraía muitos a ele. Em pouco tempo, sentiu arder na alma o desejo da glória da ciência e de uma existência mundana vivida na opulência. O demônio, o mundo e a carne tentaram incontáveis vezes arrastá- lo para a perdição, mas, apesar desses assaltos, conservou sempre íntegra sua inocência batismal. Certa vez, sentindo especial atração por uma formosa e pouco virtuosa jovem, e querendo a qualquer preço evitar a menor falta, lançou-se num pequeno lago de água gelada (era inverno) e lá permaneceu, submergido até o pescoço, e dali o retiraram quase sem sentidos. O chamado do Senhor Contava Bernardo 21 anos de idade, e a graça divina havia muito batia às portas de seu coração ardente: “Para que vieste ao mundo?” Esta pergunta vinhalhe à mente com freqüência cada vez maior. A radicalidade da vida monástica atraía aquela alma feita para grandes atos de heroísmo: abandonar honras, riqueza e família, consagrar-se para sempre ao serviço do Rei Eterno, viver daquele amor sobrenatural cujas labaredas cresciam sem cessar em seu interior… Entretanto, não faltavam parentes e amigos que o exortavam a seguir uma estrada mais larga: grandes glórias mundanas prometiam as incomuns qualidades do jovem Bernardo; sua precária saúde e débil compleição não suportariam as austeridades da vida religiosa; pode-se também servir a Deus sem enterrar num claustro os talentos de tão gentil caráter… Afligido por esses pensamentos e combates, entrou certo dia numa igreja e implorou uma luz celeste que lhe desse a conhecer, sem sombra de dúvida, o desígnio de Deus a seu respeito. E o Senhor não tardou em socorrer seu escolhido que a Ele clamava. Levantou-se Bernardo fortalecido e cheio de sobrenatural certeza, e dirigiu- se para um
São Bernardo De Claraval: Monge, Místico E Profeta

Varão de fogo, conselheiro de papas e monarcas, denominado pelo Papa Inocêncio II de “muralha inexpugnável que sustenta a Igreja”, São Bernardo foi também admirável arauto da Virgem Maria e um dos primeiros apóstolos da mediação universal da Mãe de Deus. Pe. Pedro Morazzani Arráiz, EP O ambiente era de expectativa e seriedade. A multidão comprimia- se, silenciosa, em torno de um homem ainda jovem, de fisionomia austera, que pregava à beira de um rio. Sua voz, grave e compassada, transmitia uma profunda paz de alma. “Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus. (…) Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Mt 3, 2-3), afirmava com severidade. Depois continuava suavemente, quase enternecido: “Vem depois de mim quem é mais forte do que eu, ao qual não sou digno de desatar, prostrado em terra, a correia das sandálias” (Mc 1, 7). João Batista, o último e maior dos profetas do Antigo Testamento, anunciava à nação eleita o próximo aparecimento do Salvador do gênero humano. E mais tarde, quando revelou a divindade do Messias ao proclamar: “Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29), a longa e grandiosa fileira dos profetas, que haviam predito o advento do Redentor e guiado o povo através dos séculos de espera, estava finalmente encerrada. Todas as profecias tinham-se cumprido. A Revelação está completa, mas Deus deseja servir-se das causas segundas para comunicar seus divinos desígnios à humanidade. Assim, sempre suscitará Ele alguns varões e mulheres que indiquem o Caminho, ensinem a Verdade e transmitam a Vida à maioria dos homens. Esta realidade no-la explica São Tomás, na Suma Teológica: “Em todas as épocas houve alguns que possuíam o espírito profético, não para dar a conhecer doutrinas novas, mas para dirigir a vida humana”. O profeta do século XII No século XII a Civilização Cristã havia atingido um auge que nenhum santo poderia ter imaginado nos albores duros e sangrentos da primeira época da Igreja: “A filosofia do Evangelho governava os Estados; a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil” – afirmou Leão XIII na Immortale Dei. O sustentáculo dessa sociedade sacral havia sido, durante mais de um século, a santidade emanada da abadia beneditina de Cluny. Tendo-se espalhado rapidamente por todo o Ocidente cristão, esses filhos de São Bento influenciavam e orientavam a espiritualidade e a cultura dos povos da Europa a partir do interior de seus imensos mosteiros, do alto dos púlpitos, desenvolvendo uma belíssima e aristocrática liturgia e encantando as multidões com o angélico canto gregoriano. Entretanto, após alcançar o píncaro, a grandeza de Cluny desvanecia-se lentamente, quiçá por não ter havido almas generosas que, no ápice do esplendor, quisessem partir para novos extremos de santidade. Surgiu então, não uma instituição, mas um homem que foi o reformador da disciplina eclesiástica, o modelo de todas as virtudes, a voz de Deus a indicar novos rumos àquela sociedade que começava a vacilar: Bernardo de Claraval. No ano de 1091 nascia num castelo da Borgonha o terceiro filho do senhor de Fontaines e da virtuosa dama Alet. Pouco antes de dar à luz o menino, teve ela um sonho tão nítido e expressivo que sua maternal intuição não deixou de ver nele um providencial aviso sobre o futuro do filho: tinha-lhe aparecido um cachorrinho de alvíssima pele que latia fortemente e sem cessar. Aflita, porém, por não alcançar uma clara interpretação que traduzisse seus pressentimentos, consultou um Um nítido e expressivo sonho revelou à mãe de Bernardo o futuro de seu filho (São Bernardo e seus pais Vitral do Mosteiro de Mariawald, Alemanha) Metropolitan Museum of Art, New York, USA servo de Deus, o qual lhe respondeu: “O menino será um grande pregador e latirá continuamente para guardar a Casa de Deus, e curará as chagas de muitas almas”. Descendente de duas nobres famílias e pairando sobre ele esse misterioso vaticínio, criou-o sua mãe com especial esmero, e logo que foi possível o enviou a uma famosa escola na cidade de Châtillon-sur-Seine. Seu grande talento intelectual causava admiração aos mestres e prometia-lhe uma brilhante carreira. A índole afável e um tanto tímida de Bernardo possuía uma nota de nobreza e amenidade que atraía muitos a ele. Em pouco tempo, sentiu arder na alma o desejo da glória da ciência e de uma existência mundana vivida na opulência. O demônio, o mundo e a carne tentaram incontáveis vezes arrastá- lo para a perdição, mas, apesar desses assaltos, conservou sempre íntegra sua inocência batismal. Certa vez, sentindo especial atração por uma formosa e pouco virtuosa jovem, e querendo a qualquer preço evitar a menor falta, lançou-se num pequeno lago de água gelada (era inverno) e lá permaneceu, submergido até o pescoço, e dali o retiraram quase sem sentidos. O chamado do Senhor Contava Bernardo 21 anos de idade, e a graça divina havia muito batia às portas de seu coração ardente: “Para que vieste ao mundo?” Esta pergunta vinhalhe à mente com freqüência cada vez maior. A radicalidade da vida monástica atraía aquela alma feita para grandes atos de heroísmo: abandonar honras, riqueza e família, consagrar-se para sempre ao serviço do Rei Eterno, viver daquele amor sobrenatural cujas labaredas cresciam sem cessar em seu interior… Entretanto, não faltavam parentes e amigos que o exortavam a seguir uma estrada mais larga: grandes glórias mundanas prometiam as incomuns qualidades do jovem Bernardo; sua precária saúde e débil compleição não suportariam as austeridades da vida religiosa; pode-se também servir a Deus sem enterrar num claustro os talentos de tão gentil caráter… Afligido por esses pensamentos e combates, entrou certo dia numa igreja e implorou uma luz celeste que lhe desse a conhecer, sem sombra de dúvida, o desígnio de Deus a seu respeito. E o Senhor não tardou em socorrer seu escolhido que a Ele clamava. Levantou-se Bernardo fortalecido e cheio de sobrenatural certeza, e dirigiu- se para um
São Bernardo De Claraval: Monge, Místico E Profeta

Varão de fogo, conselheiro de papas e monarcas, denominado pelo Papa Inocêncio II de “muralha inexpugnável que sustenta a Igreja”, São Bernardo foi também admirável arauto da Virgem Maria e um dos primeiros apóstolos da mediação universal da Mãe de Deus. Pe. Pedro Morazzani Arráiz, EP O ambiente era de expectativa e seriedade. A multidão comprimia- se, silenciosa, em torno de um homem ainda jovem, de fisionomia austera, que pregava à beira de um rio. Sua voz, grave e compassada, transmitia uma profunda paz de alma. “Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus. (…) Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Mt 3, 2-3), afirmava com severidade. Depois continuava suavemente, quase enternecido: “Vem depois de mim quem é mais forte do que eu, ao qual não sou digno de desatar, prostrado em terra, a correia das sandálias” (Mc 1, 7). João Batista, o último e maior dos profetas do Antigo Testamento, anunciava à nação eleita o próximo aparecimento do Salvador do gênero humano. E mais tarde, quando revelou a divindade do Messias ao proclamar: “Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29), a longa e grandiosa fileira dos profetas, que haviam predito o advento do Redentor e guiado o povo através dos séculos de espera, estava finalmente encerrada. Todas as profecias tinham-se cumprido. A Revelação está completa, mas Deus deseja servir-se das causas segundas para comunicar seus divinos desígnios à humanidade. Assim, sempre suscitará Ele alguns varões e mulheres que indiquem o Caminho, ensinem a Verdade e transmitam a Vida à maioria dos homens. Esta realidade no-la explica São Tomás, na Suma Teológica: “Em todas as épocas houve alguns que possuíam o espírito profético, não para dar a conhecer doutrinas novas, mas para dirigir a vida humana”. O profeta do século XII No século XII a Civilização Cristã havia atingido um auge que nenhum santo poderia ter imaginado nos albores duros e sangrentos da primeira época da Igreja: “A filosofia do Evangelho governava os Estados; a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil” – afirmou Leão XIII na Immortale Dei. O sustentáculo dessa sociedade sacral havia sido, durante mais de um século, a santidade emanada da abadia beneditina de Cluny. Tendo-se espalhado rapidamente por todo o Ocidente cristão, esses filhos de São Bento influenciavam e orientavam a espiritualidade e a cultura dos povos da Europa a partir do interior de seus imensos mosteiros, do alto dos púlpitos, desenvolvendo uma belíssima e aristocrática liturgia e encantando as multidões com o angélico canto gregoriano. Entretanto, após alcançar o píncaro, a grandeza de Cluny desvanecia-se lentamente, quiçá por não ter havido almas generosas que, no ápice do esplendor, quisessem partir para novos extremos de santidade. Surgiu então, não uma instituição, mas um homem que foi o reformador da disciplina eclesiástica, o modelo de todas as virtudes, a voz de Deus a indicar novos rumos àquela sociedade que começava a vacilar: Bernardo de Claraval. No ano de 1091 nascia num castelo da Borgonha o terceiro filho do senhor de Fontaines e da virtuosa dama Alet. Pouco antes de dar à luz o menino, teve ela um sonho tão nítido e expressivo que sua maternal intuição não deixou de ver nele um providencial aviso sobre o futuro do filho: tinha-lhe aparecido um cachorrinho de alvíssima pele que latia fortemente e sem cessar. Aflita, porém, por não alcançar uma clara interpretação que traduzisse seus pressentimentos, consultou um Um nítido e expressivo sonho revelou à mãe de Bernardo o futuro de seu filho (São Bernardo e seus pais Vitral do Mosteiro de Mariawald, Alemanha) Metropolitan Museum of Art, New York, USA servo de Deus, o qual lhe respondeu: “O menino será um grande pregador e latirá continuamente para guardar a Casa de Deus, e curará as chagas de muitas almas”. Descendente de duas nobres famílias e pairando sobre ele esse misterioso vaticínio, criou-o sua mãe com especial esmero, e logo que foi possível o enviou a uma famosa escola na cidade de Châtillon-sur-Seine. Seu grande talento intelectual causava admiração aos mestres e prometia-lhe uma brilhante carreira. A índole afável e um tanto tímida de Bernardo possuía uma nota de nobreza e amenidade que atraía muitos a ele. Em pouco tempo, sentiu arder na alma o desejo da glória da ciência e de uma existência mundana vivida na opulência. O demônio, o mundo e a carne tentaram incontáveis vezes arrastá- lo para a perdição, mas, apesar desses assaltos, conservou sempre íntegra sua inocência batismal. Certa vez, sentindo especial atração por uma formosa e pouco virtuosa jovem, e querendo a qualquer preço evitar a menor falta, lançou-se num pequeno lago de água gelada (era inverno) e lá permaneceu, submergido até o pescoço, e dali o retiraram quase sem sentidos. O chamado do Senhor Contava Bernardo 21 anos de idade, e a graça divina havia muito batia às portas de seu coração ardente: “Para que vieste ao mundo?” Esta pergunta vinhalhe à mente com freqüência cada vez maior. A radicalidade da vida monástica atraía aquela alma feita para grandes atos de heroísmo: abandonar honras, riqueza e família, consagrar-se para sempre ao serviço do Rei Eterno, viver daquele amor sobrenatural cujas labaredas cresciam sem cessar em seu interior… Entretanto, não faltavam parentes e amigos que o exortavam a seguir uma estrada mais larga: grandes glórias mundanas prometiam as incomuns qualidades do jovem Bernardo; sua precária saúde e débil compleição não suportariam as austeridades da vida religiosa; pode-se também servir a Deus sem enterrar num claustro os talentos de tão gentil caráter… Afligido por esses pensamentos e combates, entrou certo dia numa igreja e implorou uma luz celeste que lhe desse a conhecer, sem sombra de dúvida, o desígnio de Deus a seu respeito. E o Senhor não tardou em socorrer seu escolhido que a Ele clamava. Levantou-se Bernardo fortalecido e cheio de sobrenatural certeza, e dirigiu- se para um
São Bernardo De Claraval: Monge, Místico E Profeta

Varão de fogo, conselheiro de papas e monarcas, denominado pelo Papa Inocêncio II de “muralha inexpugnável que sustenta a Igreja”, São Bernardo foi também admirável arauto da Virgem Maria e um dos primeiros apóstolos da mediação universal da Mãe de Deus. Pe. Pedro Morazzani Arráiz, EP O ambiente era de expectativa e seriedade. A multidão comprimia- se, silenciosa, em torno de um homem ainda jovem, de fisionomia austera, que pregava à beira de um rio. Sua voz, grave e compassada, transmitia uma profunda paz de alma. “Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus. (…) Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Mt 3, 2-3), afirmava com severidade. Depois continuava suavemente, quase enternecido: “Vem depois de mim quem é mais forte do que eu, ao qual não sou digno de desatar, prostrado em terra, a correia das sandálias” (Mc 1, 7). João Batista, o último e maior dos profetas do Antigo Testamento, anunciava à nação eleita o próximo aparecimento do Salvador do gênero humano. E mais tarde, quando revelou a divindade do Messias ao proclamar: “Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29), a longa e grandiosa fileira dos profetas, que haviam predito o advento do Redentor e guiado o povo através dos séculos de espera, estava finalmente encerrada. Todas as profecias tinham-se cumprido. A Revelação está completa, mas Deus deseja servir-se das causas segundas para comunicar seus divinos desígnios à humanidade. Assim, sempre suscitará Ele alguns varões e mulheres que indiquem o Caminho, ensinem a Verdade e transmitam a Vida à maioria dos homens. Esta realidade no-la explica São Tomás, na Suma Teológica: “Em todas as épocas houve alguns que possuíam o espírito profético, não para dar a conhecer doutrinas novas, mas para dirigir a vida humana”. O profeta do século XII No século XII a Civilização Cristã havia atingido um auge que nenhum santo poderia ter imaginado nos albores duros e sangrentos da primeira época da Igreja: “A filosofia do Evangelho governava os Estados; a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil” – afirmou Leão XIII na Immortale Dei. O sustentáculo dessa sociedade sacral havia sido, durante mais de um século, a santidade emanada da abadia beneditina de Cluny. Tendo-se espalhado rapidamente por todo o Ocidente cristão, esses filhos de São Bento influenciavam e orientavam a espiritualidade e a cultura dos povos da Europa a partir do interior de seus imensos mosteiros, do alto dos púlpitos, desenvolvendo uma belíssima e aristocrática liturgia e encantando as multidões com o angélico canto gregoriano. Entretanto, após alcançar o píncaro, a grandeza de Cluny desvanecia-se lentamente, quiçá por não ter havido almas generosas que, no ápice do esplendor, quisessem partir para novos extremos de santidade. Surgiu então, não uma instituição, mas um homem que foi o reformador da disciplina eclesiástica, o modelo de todas as virtudes, a voz de Deus a indicar novos rumos àquela sociedade que começava a vacilar: Bernardo de Claraval. No ano de 1091 nascia num castelo da Borgonha o terceiro filho do senhor de Fontaines e da virtuosa dama Alet. Pouco antes de dar à luz o menino, teve ela um sonho tão nítido e expressivo que sua maternal intuição não deixou de ver nele um providencial aviso sobre o futuro do filho: tinha-lhe aparecido um cachorrinho de alvíssima pele que latia fortemente e sem cessar. Aflita, porém, por não alcançar uma clara interpretação que traduzisse seus pressentimentos, consultou um Um nítido e expressivo sonho revelou à mãe de Bernardo o futuro de seu filho (São Bernardo e seus pais Vitral do Mosteiro de Mariawald, Alemanha) Metropolitan Museum of Art, New York, USA servo de Deus, o qual lhe respondeu: “O menino será um grande pregador e latirá continuamente para guardar a Casa de Deus, e curará as chagas de muitas almas”. Descendente de duas nobres famílias e pairando sobre ele esse misterioso vaticínio, criou-o sua mãe com especial esmero, e logo que foi possível o enviou a uma famosa escola na cidade de Châtillon-sur-Seine. Seu grande talento intelectual causava admiração aos mestres e prometia-lhe uma brilhante carreira. A índole afável e um tanto tímida de Bernardo possuía uma nota de nobreza e amenidade que atraía muitos a ele. Em pouco tempo, sentiu arder na alma o desejo da glória da ciência e de uma existência mundana vivida na opulência. O demônio, o mundo e a carne tentaram incontáveis vezes arrastá- lo para a perdição, mas, apesar desses assaltos, conservou sempre íntegra sua inocência batismal. Certa vez, sentindo especial atração por uma formosa e pouco virtuosa jovem, e querendo a qualquer preço evitar a menor falta, lançou-se num pequeno lago de água gelada (era inverno) e lá permaneceu, submergido até o pescoço, e dali o retiraram quase sem sentidos. O chamado do Senhor Contava Bernardo 21 anos de idade, e a graça divina havia muito batia às portas de seu coração ardente: “Para que vieste ao mundo?” Esta pergunta vinhalhe à mente com freqüência cada vez maior. A radicalidade da vida monástica atraía aquela alma feita para grandes atos de heroísmo: abandonar honras, riqueza e família, consagrar-se para sempre ao serviço do Rei Eterno, viver daquele amor sobrenatural cujas labaredas cresciam sem cessar em seu interior… Entretanto, não faltavam parentes e amigos que o exortavam a seguir uma estrada mais larga: grandes glórias mundanas prometiam as incomuns qualidades do jovem Bernardo; sua precária saúde e débil compleição não suportariam as austeridades da vida religiosa; pode-se também servir a Deus sem enterrar num claustro os talentos de tão gentil caráter… Afligido por esses pensamentos e combates, entrou certo dia numa igreja e implorou uma luz celeste que lhe desse a conhecer, sem sombra de dúvida, o desígnio de Deus a seu respeito. E o Senhor não tardou em socorrer seu escolhido que a Ele clamava. Levantou-se Bernardo fortalecido e cheio de sobrenatural certeza, e dirigiu- se para um
São Bernardo De Claraval: Monge, Místico E Profeta

Varão de fogo, conselheiro de papas e monarcas, denominado pelo Papa Inocêncio II de “muralha inexpugnável que sustenta a Igreja”, São Bernardo foi também admirável arauto da Virgem Maria e um dos primeiros apóstolos da mediação universal da Mãe de Deus. Pe. Pedro Morazzani Arráiz, EP O ambiente era de expectativa e seriedade. A multidão comprimia- se, silenciosa, em torno de um homem ainda jovem, de fisionomia austera, que pregava à beira de um rio. Sua voz, grave e compassada, transmitia uma profunda paz de alma. “Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus. (…) Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Mt 3, 2-3), afirmava com severidade. Depois continuava suavemente, quase enternecido: “Vem depois de mim quem é mais forte do que eu, ao qual não sou digno de desatar, prostrado em terra, a correia das sandálias” (Mc 1, 7). João Batista, o último e maior dos profetas do Antigo Testamento, anunciava à nação eleita o próximo aparecimento do Salvador do gênero humano. E mais tarde, quando revelou a divindade do Messias ao proclamar: “Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29), a longa e grandiosa fileira dos profetas, que haviam predito o advento do Redentor e guiado o povo através dos séculos de espera, estava finalmente encerrada. Todas as profecias tinham-se cumprido. A Revelação está completa, mas Deus deseja servir-se das causas segundas para comunicar seus divinos desígnios à humanidade. Assim, sempre suscitará Ele alguns varões e mulheres que indiquem o Caminho, ensinem a Verdade e transmitam a Vida à maioria dos homens. Esta realidade no-la explica São Tomás, na Suma Teológica: “Em todas as épocas houve alguns que possuíam o espírito profético, não para dar a conhecer doutrinas novas, mas para dirigir a vida humana”. O profeta do século XII No século XII a Civilização Cristã havia atingido um auge que nenhum santo poderia ter imaginado nos albores duros e sangrentos da primeira época da Igreja: “A filosofia do Evangelho governava os Estados; a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil” – afirmou Leão XIII na Immortale Dei. O sustentáculo dessa sociedade sacral havia sido, durante mais de um século, a santidade emanada da abadia beneditina de Cluny. Tendo-se espalhado rapidamente por todo o Ocidente cristão, esses filhos de São Bento influenciavam e orientavam a espiritualidade e a cultura dos povos da Europa a partir do interior de seus imensos mosteiros, do alto dos púlpitos, desenvolvendo uma belíssima e aristocrática liturgia e encantando as multidões com o angélico canto gregoriano. Entretanto, após alcançar o píncaro, a grandeza de Cluny desvanecia-se lentamente, quiçá por não ter havido almas generosas que, no ápice do esplendor, quisessem partir para novos extremos de santidade. Surgiu então, não uma instituição, mas um homem que foi o reformador da disciplina eclesiástica, o modelo de todas as virtudes, a voz de Deus a indicar novos rumos àquela sociedade que começava a vacilar: Bernardo de Claraval. No ano de 1091 nascia num castelo da Borgonha o terceiro filho do senhor de Fontaines e da virtuosa dama Alet. Pouco antes de dar à luz o menino, teve ela um sonho tão nítido e expressivo que sua maternal intuição não deixou de ver nele um providencial aviso sobre o futuro do filho: tinha-lhe aparecido um cachorrinho de alvíssima pele que latia fortemente e sem cessar. Aflita, porém, por não alcançar uma clara interpretação que traduzisse seus pressentimentos, consultou um Um nítido e expressivo sonho revelou à mãe de Bernardo o futuro de seu filho (São Bernardo e seus pais Vitral do Mosteiro de Mariawald, Alemanha) Metropolitan Museum of Art, New York, USA servo de Deus, o qual lhe respondeu: “O menino será um grande pregador e latirá continuamente para guardar a Casa de Deus, e curará as chagas de muitas almas”. Descendente de duas nobres famílias e pairando sobre ele esse misterioso vaticínio, criou-o sua mãe com especial esmero, e logo que foi possível o enviou a uma famosa escola na cidade de Châtillon-sur-Seine. Seu grande talento intelectual causava admiração aos mestres e prometia-lhe uma brilhante carreira. A índole afável e um tanto tímida de Bernardo possuía uma nota de nobreza e amenidade que atraía muitos a ele. Em pouco tempo, sentiu arder na alma o desejo da glória da ciência e de uma existência mundana vivida na opulência. O demônio, o mundo e a carne tentaram incontáveis vezes arrastá- lo para a perdição, mas, apesar desses assaltos, conservou sempre íntegra sua inocência batismal. Certa vez, sentindo especial atração por uma formosa e pouco virtuosa jovem, e querendo a qualquer preço evitar a menor falta, lançou-se num pequeno lago de água gelada (era inverno) e lá permaneceu, submergido até o pescoço, e dali o retiraram quase sem sentidos. O chamado do Senhor Contava Bernardo 21 anos de idade, e a graça divina havia muito batia às portas de seu coração ardente: “Para que vieste ao mundo?” Esta pergunta vinhalhe à mente com freqüência cada vez maior. A radicalidade da vida monástica atraía aquela alma feita para grandes atos de heroísmo: abandonar honras, riqueza e família, consagrar-se para sempre ao serviço do Rei Eterno, viver daquele amor sobrenatural cujas labaredas cresciam sem cessar em seu interior… Entretanto, não faltavam parentes e amigos que o exortavam a seguir uma estrada mais larga: grandes glórias mundanas prometiam as incomuns qualidades do jovem Bernardo; sua precária saúde e débil compleição não suportariam as austeridades da vida religiosa; pode-se também servir a Deus sem enterrar num claustro os talentos de tão gentil caráter… Afligido por esses pensamentos e combates, entrou certo dia numa igreja e implorou uma luz celeste que lhe desse a conhecer, sem sombra de dúvida, o desígnio de Deus a seu respeito. E o Senhor não tardou em socorrer seu escolhido que a Ele clamava. Levantou-se Bernardo fortalecido e cheio de sobrenatural certeza, e dirigiu- se para um
Evangelho Do Dia 2018-08-20

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018. Santo do dia: São Bernardo de Claraval, abade e Doutor da IgrejaCor litúrgica: branco Evangelho do dia: São Mateus 19, 16-22 Primeira leitura: Ezequiel 24, 15-24Leitura da profecia de Ezequiel: 15A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 16“Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos. Mas não deverás lamentar-te nem chorar ou derramar lágrimas. 17Geme em silêncio, sem fazer o luto dos mortos. Põe o turbante na cabeça, calça as sandálias nos pés, sem encobrir a barba nem comer o pão dos enlutados”. 18Eu tinha falado ao povo pela manhã, e à tarde minha esposa morreu. Na manhã seguinte, fiz como me foi ordenado. 19Então, o povo perguntou-me: “Não nos vais explicar o que têm a ver conosco as coisas que tu fazes?” 20Eu respondi-lhes: “A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 21Fala à casa de Israel: Assim diz o Senhor Deus: Vou profanar o meu santuário, o objeto do vosso orgulho, o encanto de vossos olhos, o alento de vossas vidas. Os filhos e as filhas que lá deixastes tombarão pela espada. 22E fareis assim como eu fiz: não cobrireis a barba nem comereis o pão dos enlutados, 23levareis o turbante na cabeça, as sandálias nos pés, sem vos lamentar nem chorar. Definhareis por causa de vossas próprias culpas, gemendo uns para os outros. 24Ezequiel servirá para vós como sinal: fareis exatamente o que ele fez; quando isso acontecer, sabereis que eu sou o Senhor Deus”. – Palavra do Senhor – Graças a Deus Salmo Dt 32 – Da rocha que te deu à luz te esqueceste, do Deus que te gerou não te lembraste. Vendo isso, o Senhor os desprezou, aborrecido com seus filhos e suas filhas. R: Esqueceram o Deus que os gerou. – E disse: “Esconderei deles meu rosto e verei, então, o fim que eles terão, pois tornaram-se um povo pervertido, são filhos que não têm fidelidade. R: Esqueceram o Deus que os gerou. – Com deuses falsos provocaram minha ira, com ídolos vazios me irritaram; vou provocá-los por aqueles que nem são um povo, através de gente louca hei de irritá-los”. R: Esqueceram o Deus que os gerou. Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus 19, 16-22 – Aleluia, Aleluia, Aleluia.– Felizes os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus (Mt 5,3); Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus: Naquele tempo, 16alguém aproximou-se de Jesus e disse: “Mestre, o que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?” 17Jesus respondeu: “Por que tu me perguntas sobre o que é bom? Um só é o bom. Se tu queres entrar na vida, observa os mandamentos”. 18O homem perguntou: “Quais mandamentos?” Jesus respondeu: “Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, 19honra teu pai e tua mãe e ama teu próximo como a ti mesmo”. 20O jovem disse a Jesus: “Tenho observado todas essas coisas. O que ainda me falta?” 21Jesus respondeu: “Se tu queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. 22Quando ouviu isso, o jovem foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. – Palavra da Salvação– Glória a Vós, Senhor Fonte: Evangelho Diário – Arautos do Evangelho